Narcisistas: o que são?

O que é uma pessoa narcisista, quais as suas caracterísicas e como reconhecer os seus padrões? Estivemos à conversa com uma especialista na área para esclarecer dúvidas.

Narcisistas: o que são?© Justin Paget

Nos últimos tempos tem-se teorizado cada vez mais sobre os tipos de pessoas que somos e a forma como isso pode impactar a dinâmica de uma relação. Um dos termos mais usados é o de ‘narcisista’.

Mas afinal, o que é uma pessoa narcisista?

Em conversa com a psicóloga Ana Isabel Ferreira, especialista na área, tentámos esclarecer algumas dúvidas sobre o tema.

O termo 'narcisista' é hoje muito utilizado no dia a dia para descrever alguém mais egoísta ou autocentrado. No entanto, quando falamos de narcisismo num sentido clínico, estamos a referir-nos a uma realidade diferente e mais complexa”, começou por esclarecer.

Quando falamos de narcisismo num enquadramento psicológico, estamos a falar de um padrão de funcionamento mais profundo, que pode ter origem na infância e que se vai estruturando ao longo do desenvolvimento. Trata-se de uma forma de estar no mundo em que a pessoa tem dificuldade em aceder a uma identidade emocional autêntica e consistente”, completou. No fundo, o indivíduo “constrói uma espécie de personagem” que depois vai utilizando em diferentes contextos com o objetivo final “de obter validação, controlo ou reconhecimento”.

Ao adotar este tipo de comportamento, o narcisista deixa de ver o outro como “um sujeito com emoções, limites e necessidades próprias, passando a ser, muitas vezes, tratado como um meio para atingir um fim”. Por este motivo, as relações - sejam profissionais, familiares ou amorosas - tendem a ser organizadas em função daquilo que o outro tem para oferecer. As pessoas ocupam funções na vida dessa pessoa, o que ajuda a explicar a necessidade de controlo que frequentemente está presente.

A psicóloga reforçou ainda que nem todas as pessoas com traços narcísicos têm uma perturbação de personalidade, como em tantas outras perturbações de personalidade, existe um espectro. No entanto, quando o padrão é consistente e causa sofrimento nas relações, estamos perante algo que deve ser olhado com seriedade.

Mais do que o rótulo ou o diagnóstico, o mais importante é perceber o impacto da relação.

Se está numa relação onde: se sente constantemente desvalorizada; confusa; emocionalmente desgastada; ou a perder o contacto consigo própria - essa é a informação mais relevante.

O foco não deve ser “será que esta pessoa é narcisista?”, mas sim: “o que é que esta relação me está a fazer?”

No entanto, há um ponto importante a considerar, sublinha Ana. Quando existe um padrão consistente de funcionamento narcísico, é essencial compreender que não se trata apenas de comportamentos isolados, mas antes de uma estrutura profunda da personalidade. “Isto significa que a mudança, quando acontece, é geralmente superficial e motivada por ganhos ou perdas na relação, e não por uma transformação interna genuína”, explica.

Na prática, a pessoa pode ajustar comportamentos momentaneamente, sobretudo se sentir que pode perder algo importante, mas, com o tempo, tende a regressar ao seu modo habitual de funcionamento. Isto é particularmente relevante em relações amorosas, onde muitas pessoas permanecem durante anos à espera de mudança. Essa esperança, apesar de compreensível, pode prolongar o sofrimento.

Por isso, mais do que esperar uma mudança estrutural do outro, é importante olhar para a realidade da relação tal como ela é, e não como gostaríamos que fosse.

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