Incrível redução do risco de Alzheimer confirmada por marcadores sanguíneos
Quando o pai foi diagnosticado com Alzheimer em estágio inicial, aos 62 anos, Penny Ashford sabia que esta devastadora doença cerebral poderia um dia roubar também a sua própria memória. Quando chegou também ela aos 60 anos, a sua ansiedade transformou-se num pânico absoluto quando começou a ter dificuldade em encontrar as palavras.
“Eu não conseguia contar uma história. Não conseguia articular as palavras”, lembra Ashford, agora com 61 anos. “Lembro-me de estar sentada num jantar e não conseguir terminar os meus pensamentos. Foi o momento mais inacreditável”.
“Cheguei a casa, soluçando e disse ao meu marido: ‘Passa-se algo de errado comigo. Não consigo falar’”, diz. “Fiquei apavorada”.
Hoje, após uma mudança completa do seu estilo de vida e saúde em geral, as dificuldades de Ashford em recuperar palavras diminuíram, enquanto as medidas de proteínas amiloide e tau e a neuroinflamação - todos sinais característicos do Alzheimer - caíram.
Ashford sabe dessas melhorias porque participa num estudo exclusivo que acompanha o seu progresso através de biomarcadores sanguíneos importantes, agora usados para ajudar a diagnosticar casos de demência precoce. Em vez de depender de punções lombares dolorosas e exames cerebrais caros, estes exames de sangue são anunciados como uma nova forma, menos invasiva e demorada, de determinar o risco e auxiliar no diagnóstico precoce da doença de Alzheimer.
Os dados preliminares, apresentados na reunião anual da Academia Americana de Neurologia em San Diego, nos Estados Unidos, analisaram biomarcadores em 54 participantes de um estudo neurológico preventivo que se encontra a decorrer chamado Estudo de Biorepositório para Doenças Neurodegenerativas , ou BioRAND.
“O campo usa principalmente vários biomarcadores para determinar se a pessoa tem demência ou não”, começa por explicar a principal Kellyann Niotis, autora do estudo e neurologista preventiva que estuda a redução de risco para as doenças de Alzheimer e Parkinson no Instituto de Doenças Neurodegenerativas em Boca Raton, naFlórida.
“Ninguém está realmente a analisar as alterações nestes biomarcadores como medidas de resultado, como uma forma de acompanhar o progresso na jornada de uma pessoa para melhorar o cérebro” adianta Niotis. “Acreditamos que estes biomarcadores podem mostrar como a progressão da doença está a ser modificada biologicamente pelas ações da própria pessoa”.
Teste menos invasivo para risco de Alzheimer
Os exames de sangue para diagnosticar a doença de Alzheimer são a chave para a prevenção generalizada da demência, como garantem os especialistas. Se as pessoas puderem ser diagnosticadas no consultório médico, poderão recorrer mais imediatamente a cuidados preventivos e implementar mudanças no estilo de vida destinadas a retardar a progressão da doença.
O problema, reconhece Richard Isaacson, autor do estudo, é a variabilidade na eficácia com que estes novos testes de biomarcadores sanguíneos funcionam para prever ou rastrear a progressão da doença.
“Há um pequeno grande segredo na comunidade dos testes sanguíneos para o Alzheimer, onde são lançadas tantas plataformas de testes, empresas de biotecnologia e uma enxurrada de novos testes sanguíneos”, diz Isaacson, “mas não está claro quais destes testes são mais precisos para acompanhar a progressão e avaliar a resposta às terapias que visam abrandar a progressão para a demência”.
Para preencher esta lacuna, a equipa de investigação de Isaacson e colaboradores em cinco locais nos Estados Unidos e Canadá propuseram-se a avaliar e, eventualmente, comparar o uso clínico do que o neurologista disse acreditar que um dia se tornará “o teste de colesterol para o cérebro”.
“Num futuro não muito distante, as pessoas na faixa dos 30, 40, 50, 60 anos ou mais farão um teste de base para avaliar o risco e ajudar a monitorizar o progresso ao longo do tempo - semelhante aos testes tradicionais de colesterol que são usados hoje”, continua Isaacson, fundador de uma das primeiras clínicas de prevenção do Alzheimer nos Estados Unidos.
“O nosso objetivo final é oferecer um exame de sangue a preço de custo para ajudar a democratizar o acesso e ampliar a capacidade das pessoas de receber cuidados”, acrescentou.
O que os exames de sangue para Alzheimer medem hoje em dia
Medir os níveis de amilóide e tau é essencial para entender e diagnosticar o Alzheimer e outras formas de demência.
As placas amilóides desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da doença de Alzheimer, quando pequenos aglomerados se reúnem nas sinapses cerebrais e interferem na capacidade de comunicação das células nervosas. Acredita-se que essas placas desencadeiem alterações nas proteínas tau, que se formam emaranhados em partes do cérebro que controlam a memória.
Os emaranhados tau também estão implicados noutras doenças neurológicas, como a demência frontotemporal e a demência por corpos de Lewy, na qual aglomerados anormais de uma proteína chamada alfa-sinucleína se acumulam nos neurónios do cérebro.
O biomarcador tau 217 fosforilado no plasma, ou p-tau217, é um dos principais candidatos no diagnóstico de comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer num estágio inicial. O seu ‘primo’, p-tau 181, também é um indicador útil. O p-tau 217 é um “belo marcador para Alzheimer”, começa por dizer. Maria Carrillo, diretora científica da Associação de Alzheimer.
“Não se está realmente a medir o amilóide, mas o teste está a dizer que está lá, e isso foi comprovado por exames de PET [tomografia por emissão de pósitrons] objetivos, que conseguem detetar amilóide no cérebro”, continua Carrillo. “Se [a pessoa] tem tau elevado no cérebro, sabemos que isso é um sinal de outro tipo de demência”.
Outro teste de biomarcador é a cintilografia da razão amiloide 42/40. Este método de diagnóstico por imagem da Medicina Nuclear mede dois tipos de proteínas amiloides, outro biomarcador fundamental da doença de Alzheimer. Às vezes, esses testes funcionam melhor quando usados em conjunto. Num estudo anterior, uma combinação dos testes amiloide e p-tau 217, chamada de pontuação de probabilidade de amiloide, mostrou uma taxa de precisão de 90% na determinação se a perda de memória é devida à doença de Alzheimer.
A proteína ácida fibrilar glial, ou GFAP, e a cadeia leve do neurofilamento, ou NfL, que indicam inflamação cerebral e deterioração degenerativa, também são úteis no acompanhamento da progressão da doença de Alzheimer. Dezenas de outros biomarcadores estão a ser testados em laboratórios um pouco por todo o mundo.
A equipa de Isaacson no Instituto de Doenças Neurodegenerativas está a estudar mais de 125 marcadores individuais de uma variedade de testes comerciais e baseados em estudos, alguns dos quais podem em breve estar disponíveis em ambiente clínico.
Mas porque é que se investigam tantos? Porque a medicina personalizada pode exigir isso, adianta Niotis. “As doenças neurodegenerativas manifestam-se de forma muito diferente em cada pessoa”, continua, dizendo que “pode ser que precisemos de uma abordagem muito diferenciada e individualizada na prática clínica para monitorizar a eficácia do que estamos a fazer para um determinado paciente”.
O trabalho árduo compensa com a redução de riscos
O estudo de neurologia preventiva em andamento, denominado BioRAND, envolveu 71 participantes, com biomarcadores a serem analisados em 54 pessoas. As outras 17 pessoas serviram como grupo de controlo.
O grupo de 54 pessoas recebeu uma série de recomendações personalizadas de estilo de vida, elaboradas para aprimorar o cérebro, uma vez que estudos anteriores demonstraram que tais intervenções melhoram a memória e as habilidades de raciocínio em cinco pontos num teste cognitivo para pessoas com comprometimento cognitivo leve.
As recomendações incluem foco no controlo da tensão arterial, dieta, exercícios, redução do stress, higiene do sono e controlo de peso, além de abordar desequilíbrios metabólicos, hormonais e nutricionais. Medicamentos, vitaminas e suplementos são adaptados às necessidades individuais de cada pessoa.
Semelhante a um estudo de 2019 liderado por Isaacson e Niotis, as pessoas que cumpriram pelo menos 60% das recomendações de estilo de vida foram consideradas de alta adesão, enquanto aquelas que implementaram menos de 60% apresentaram baixa adesão. A realização de exames de sangue periódicos ajudaram a monitorizar o progresso em vários biomarcadores cerebrais. O resultado? Quanto mais as pessoas se dedicam à mudança, melhores são os seus cérebros. Basta olhar para Penny Ashford, cuja história começamos a contar no início deste artigo.
“Os meus exames de sangue estavam péssimos; os eus hábitos alimentares eram péssimos. Eu não fazia exercícios, então meu tónus muscular estava péssimo - eu não tinha músculos nas nádegas nem nas coxas”, recorda Ashford, acrescentando: “Recebi o sermão da minha vida. Disseram-me: ‘A sua janela está a fechar-se, os seus marcadores estão péssimos. Ou faz isto, ou está tramada’”.
'Nota 10 em 10' na dieta e exercícios
Viciada em açúcar desde sempre, Ashford parou de comer doces. “Costumava pensar que tinha um desequilíbrio químico porque era louca por açúcar - eu conseguia devorar um pacote inteiro de Oreos sem problemas e adoro gelados”. Mas hoje é diferente: “Não como sobremesas. Não como gelados. Não como nada além de frutas desde março do ano passado”.
Ashford iniciou um programa intenso de exercícios cardiovasculares e de resistência, além de ioga para reduzir o stress, e adotou uma dieta mediterrânea à base de vegetais. Sob supervisão médica, passou a tomar suplementos e vitaminas para aumentar a energia e reduzir o stress.
“Ela foi nota 10 em 10 com dieta e exercícios”, diz Niotis, revelando que Ashford “perdeu cerca de 13 quilos e ganhou massa muscular magra. Foi incrível”.
Um ano depois, os biomarcadores sanguíneos de Ashford revelaram uma história completamente diferente sobre a saúde do seu cérebro. O seu p-tau 217 caiu 43% e o seu p-tau 181, 75%. “Também analisamos o GFAP e a luz do neurofilamento, os marcadores de neuroinflamação e neurodegeneração”, continua a autora do estudo, indicando que “o GFAP de Penny caiu 66% e o NfL caiu 84%”.
“Estas mudanças nos marcadores de saúde neuronal são realmente impressionantes”, acrescenta Kellyann Niotis. “E o melhor de tudo é que realmente correspondeu aos seus sintomas clínicos. SOs seus problemas de recuperação de palavras melhoraram e ela sentiu-se muito melhor”.
“Estou tão orgulhosa de mim mesma”
Ashford não foi a única com melhor desempenho no estudo. Os biomarcadores sanguíneos também melhoraram significativamente em todo o grupo que recebeu orientação para redução de risco, garante Isaacson, mesmo entre aqueles que não estavam tão comprometidos quanto Ashford.
“Perdi a conta de quantas pessoas mostraram que os marcadores sanguíneos de doenças cerebrais estão na direção certa, mas surpreendo-me sempre”, admite o investigador. “Ao longo de 20 anos disseram-me que o que estava a acontecer diante dos meus olhos era impossível, mas as histórias dos pacientes, as melhoras clínicas e os resultados dos exames falam por si”, assegura, embora reconheça que ainda há muito trabalho a ser feito antes que os exames de sangue para Alzheimer se tornem parte rotineira da prática clínica.
“O nosso grupo tem um ditado: ‘Prometa não prometer demasiado’. Com isso queremos dizer que é fundamental ser transparente sobre as limitações atuais destes testes e a variabilidade entre as diferentes plataformas”, vinca o investigador.
Enquanto a ciência resolve os problemas, Ashford considera-se uma sortuda por conseguir estar a par de mudanças nos números dos seus biomarcadores - um fator motivante que considera fundamental nesta sua procura por uma melhor saúde cerebral.
“Estou tão orgulhosa de mim mesma. E cada sucesso que tenho dá-me forças para fazer mais, continuar e não desistir”, diz. “Olho para o meu pai. Ele não tinha nenhuma dessas opções. Vi o meu pai deteriorar-se e agradeço a Deus por ter tanta sorte. Nós temos tanta sorte”.


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