“Inflammaging”: Abrandando a marcha do tempo

 

Este raio X colorido mostra as mãos de um paciente com artrite reumatóide, que provoca inflamação crónica e erosão óssea (manchas alaranjadas) junto das articulações dos dedos.© ZEPHYR, SCIENCE SOURCE

Acontece a todos. A idade é acompanhada por dores nas articulações e um aumento do risco de cancro, doença cardíaca, demência e artrite, entre outras doenças. Estas alterações surgem como consequência do aumento das moléculas inflamatórias ocorrido ao longo da vida e é tão comum que tem um nome científico em inglês: inflammaging, termo que resulta da combinação das palavras “inflamação” e “envelhecimento” e significa inflamação agravada pelo envelhecimento.

Agora, os investigadores tentam desvendar a maneira como o processo inflamatório muda ao longo da vida, o que instiga essa mudança e como será possível interferir nela. À medida que as pessoas envelhecem, o número de citocinas pró-inflamatórias que circulam no sangue vai aumentando, assim como o de outras moléculas relacionadas com a inflamação. O momento da mudança depende da pessoa, diz Ron DePinho, investigador de biologia do cancro e envelhecimento no Centro Oncológico MD Anderson, na Universidade do Texas. Habitualmente, a inflamação começa a aumentar aos 50 anos, com uma mudança dramática aos 60.

O aumento acompanha de perto as tendências de doença. O número de pessoas com Alzheimer duplica a cada cinco anos a partir dos 65 anos. Nos EUA, 80 por cento dos adultos com mais de 65 anos padece, no mínimo, de uma doença crónica. Aos 85 anos, um terço das pessoas pode ter Alzheimer, e um terço dos homens e um quarto das mulheres já teve cancro.

Os investigadores tentam desvendar a maneira como o processo inflamatório muda ao longo da vida, o que instiga essa mudança e como será possível interferir nela.

A um nível mais básico, os medicamentos anti-inflamatórios e os hábitos saudáveis, como a prática de exercício físico, podem abrandar alguns aspectos do processo de inflammaging, diz Ron DePinho. Os investigadores procuram compreender melhor o problema para encontrarem soluções mais específicas. Até à data, já foi identificada  uma dezena de alterações biológicas que acompanham a idade. Todos esses marcos do envelhecimento encontram-se associados à inflamação, diz Luigi Ferrucci, do Instituto Nacional para o Envelhecimento. À medida que as pessoas envelhecem, as células imunitárias perdem as suas funções protetoras e deixam de combater os invasores, transformando-se naquilo a que os cientistas chamam células senescentes. Outros tipos de células também podem tornar-se senescentes devido ao stress. Deixam de se reproduzir, param de funcionar e começam a segregar moléculas inflamatórias potentes que provocam a senescência de ainda mais células.

Entretanto, os danos no ADN no interior destas células vão-se acumulando ao longo do tempo, sobretudo nas extremidades dos cromossomas, em regiões protetoras denominadas telómeros – pedaços de ADN compridos e agrupados. Sempre que uma célula se divide, os seus telómeros tornam-se mais curtos até alcançarem um comprimento crítico que a célula interpreta como instabilidade ou danos no ADN, podendo desencadear deterioração.

À medida que vão sofrendo danos, os telómeros iniciam um processo de sinalização através das proteínas, que ativa e desactiva determinados genes. Alguns desses genes contribuem para o funcionamento das mitocôndrias (os componentes celulares que produzem energia). Devido às perturbações sofridas pelos genes, as mitocôndrias tornam-se defeituosas e o seu ADN infiltra-se nas células, causando inflamação.

Segundo Ron DePinho, antigamente os cientistas encaravam o encurtamento dos telómeros, os danos mitocondriais, a inflamação e outros processos como teorias separadas sobre o envelhecimento, que poderiam contribuir para doenças como o cancro. Agora, torna-se evidente que todas essas mudanças estão interligadas e que a inflamação funciona como um co-conspirador no processo de envelhecimento.

Devido às perturbações sofridas pelos genes, as mitocôndrias tornam-se defeituosas e o seu ADN infiltra-se nas células, causando inflamação.

À medida que a inflamação crónica se instala, o sistema imunitário tem mais dificuldade em executar tarefas como a detecção e eliminação de células cancerígenas e agentes patogénicos, o que aumenta a probabilidade de desenvolver doenças. No entanto, este conhecimento incipiente da inflammaging enquanto circuito imparável de passos que exacerbam a inflamação está a revelar novas formas de quebrar o ciclo.

O desenvolvimento de terapêuticas continua a ser um desafio porque estas teriam de ser suficientemente específicas para não fazerem mais mal do que bem, diz Luigi Ferrucci. O combate à inflamação crónica com medicação anti-inflamatória genérica, por exemplo, pode tornar-nos mais susceptíveis à doença por comprometer os processos de que precisamos para nos mantermos saudáveis. “Quando sofremos uma infecção, se não houver inflamação, morremos”, diz este especialista. “É eficaz acabar com a inflamação com uma bomba como um corticosteróide ou anticorpos monoclonais, mas também é perigoso.”

Uma das estratégias promissoras é o ataque às células senescentes. Nos ratos, uma combinação de baixa dosagem de duas substâncias – dasatinibe (um fármaco) e quercetina (um pigmento vegetal) – parece ser eficaz na eliminação das células envelhecidas dos intestinos. Há ensaios clínicos em curso para descobrir se estes senolíticos funcionam em humanos.

Os cientistas pretendem saber quais as intervenções que mais podem ajudar. “Os tecidos possuem uma capacidade notável para se renovarem, se removermos os instigadores subjacentes ao processo de envelhecimento”, diz Ron DePinho. Por enquanto, o exercício físico continua a ser um dos melhores remédios, pois melhora a capacidade de reparação do ADN e o funcionamento das mitocôndrias. E bastam 15 minutos por dia para fazer diferença.

As escolhas dietéticas também podem melhorar a inflammaging, e vários estudos defendem a dieta de estilo mediterrâneo. Quando vai ao supermercado, Luigi Ferrucci compra dez tipos de legumes. “Isto é algo que tem sido sugerido na literatura e acho que é uma forma simples de seguir esse conselho”, diz.

Comentários

Mensagens populares