Porque ficamos nervosos quando estamos a ser observados?
O medo do julgamento social leva-nos a sentir desconforto quando somos observados. A verdade libertadora, porém, é que os outros reparam em nós muito menos do que pensamos.
Ao apresentar uma proposta nova a toda a empresa, a Marta sente o coração disparar. Quando atravessa o pátio da escola nova pela primeira vez, o João sente-se desconfortável. Mal se senta ao piano, para começar o recital, as mãos da Mariana tremem. Todos nós já sentimos um frio na barriga quando alguém nos está a observar — seja numa reunião, numa apresentação, numa festa ou simplesmente quando atravessamos uma sala cheia de gente. Mas por que motivo o olhar dos outros nos faz sentir ansiedade mesmo quando não há perigo real?
A explicação passa pelo nosso instinto de autoproteção e pela sensibilidade social. “A ansiedade é uma resposta natural — embora por vezes exagerada — a uma ameaça”, explica Francisco Cruz, doutorando em psicologia social na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Quando sentimos medo de falhar ou de ser avaliados negativamente pelos outros, aquilo que consideramos que nos ameaça é o impacto da avaliação alheia. Ou seja: tememos o julgamento dos outros porque sabemos que uma avaliação negativa pode ter um custo.“Se não respondemos de acordo com as normas num grupo de amigos, podemos ser ostracizados ou excluídos. Se um jogador profissional falha num momento decisivo, os seus projetos de carreira saem prejudicados.”
Além disso, frisa o investigador, “a presença dos outros traz imprevisibilidade à situação em que nos encontramos, e isso obriga a que o nosso organismo esteja alerta”. Esta resposta fisiológica confunde-se com a da ansiedade e podemos interpretá-la assim se houver esta perceção de ameaça. Isto é tanto mais provável quanto mais desafiadora for a tarefa que nos estão a observar a fazer. “Embora a presença dos outros tenda a ser positiva quando as tarefas são simples, o desempenho pode sair prejudicado, e o nervosismo reforçado, quando nos observam a fazer algo complexo ou difícil”, remata.
Esta experiência é, em grande parte, moldada pelas diferenças individuais. Alguns traços de personalidade, entre eles a sensibilidade à ansiedade, determinam quão reativos somos a estas situações. “Todos nos sentimos observados e ansiosos em dados contextos. Há diferenças na quantidade de ansiedade que diferentes pessoas sentem, mas também na quantidade de ansiedade que é necessária para nos afetar. Duas pessoas podem experienciar a mesma ansiedade, mas reagir-lhe com diferentes intensidades.” Ser extrovertido, por exemplo — sociável e expansivo em contextos interpessoais — tende a reduzir a ansiedade perante observadores. Além disso, “a postura das pessoas varia em função do que antecipam que vai acontecer. Há pessoas mais conservadoras, que procuram garantir que os possíveis dissabores não se materializem; outros vêem-se de forma mais confiante e sentem-se mais confortáveis ou em controlo em contextos sociais.”
Mas nem sempre estar a ser observado piora a nossa performance. Até a pode melhorar. “A presença de audiência e a ansiedade de desempenho podem melhorar ou piorar o desempenho,” explica André Mata, coordenador do mestrado em psicologia cognitiva e social na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e investigador no Centro de Investigação em Ciência Psicológica (CICPSI) da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Algumas teorias defendem que “podem facilitar o desempenho para tarefas fáceis e respostas dominantes ou habituais, e dificultar quando as tarefas são mais difíceis ou quando as respostas eficazes são menos habituais ou automáticas.” Este mecanismo explica por que, em alguns casos, atletas ou músicos apresentam melhor desempenho perante público.
Contudo, há também investigação que mostra que as pessoas, por vezes, falham precisamente quando seria mais importante ter um bom desempenho — um fenómeno conhecido como “sufocar sob pressão” (choking under pressure). Isto acontece, explica André Mata, porque ao ser importante, as pessoas começam a pensar excessivamente em algo que deveria ser automático.
“Pense-se num piloto de Fórmula 1, que tem de executar uma imensidão de procedimentos complexos num curtíssimo tempo. Consegue fazê-lo porque, através de longa aprendizagem, treino e repetição tornou esses procedimentos automáticos, o que significa que consegue executá-los de forma rápida e sem pensar conscientemente neles. Mas ao querer que a sua execução seja perfeita, pode começar a pensar nesses procedimentos numa forma cuidadosa e lenta que interfere com a sua execução automática e se torna assim contra-produtiva”, exemplifica o investigador.
A ansiedade por ser observado também resulta de algumas crenças falsas que temos. Sabe-se, por exemplo, que as pessoas tendem a acreditar que os outros estão muito mais atentos a elas do que realmente estão, um mecanismo conhecido como efeito do holofote (spotlight effect). No estudo que demonstrou este efeito, conta André Mata, pediu-se aos participantes para interagirem brevemente com algumas pessoas ao mesmo tempo que usavam uma tshirt de um cantor considerado piroso. Depois pediu-se-lhes para estimar quantas dessas outras pessoas repararam na sua tshirt. “O número real de pessoas que repararam na tshirt foi de apenas metade do que os participantes estimaram. O mesmo efeito verifica-se não apenas para a aparência, mas também para comportamentos. Por exemplo, as pessoas sobrestimam o quanto os outros reparam nas suas contribuições para uma conversa de grupo – quer as contribuições positivas, quer os erros ou gaffes. Há uma mensagem libertadora nestas investigações: As outras pessoas reparam em nós – no que vestimos, ou dizemos – menos do que julgamos.”
E há mais: não só os outros não reparam em nós tanto quando pensamos, como não percebem geralmente o que sentimos. E exemplifica: “Uma das razões pelas quais as pessoas temem tanto falar em público é porque estão nervosas e receiam que os outros reparem no seu nervosismo, ficando assim ainda mais nervosas. Chama-se a este efeito a ‘ilusão da transparência’”. Mas, na verdade, a investigação mostra que não repararam. “Lembre-se disto da próxima vez que tiver de discursar ou executar qualquer outra tarefa desafiadora e intimidante em frente a uma audiência: as pessoas na audiência não percebem quão nervoso você está e não reparam em eventuais falhas que cometa tanto quanto você pensa.”


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