O período que ninguém quer atravessar
Todos conhecemos o ritmo.
Janeiro chega com a promessa de recomeço. Ano Novo, resoluções, energia renovada. "Desta vez vai ser diferente." E começa-se. Com entusiasmo genuíno.
Depois vem Março, e com ele a Primavera. Outra onda de "novos começos". A natureza desperta, há luz, há calor, há renovação visível por todo o lado. E voltamos a pensar: "Agora sim, agora é o momento certo."
Mas há um período entre Janeiro e Março que parece simplesmente... desaparecer.
Fevereiro. O início de Março. As semanas cinzentas, frias, onde o entusiasmo de Janeiro já se dissipou mas a energia da Primavera ainda não chegou.
É o período esquecido. E talvez seja o mais importante de todos para quem deseja ter uma estratégia de autocuidado.
O lugar mais difícil
Fevereiro não tem a energia fresca de Janeiro. Nem a renovação óbvia de Março.
É apenas... cinzento. Rotineiro. Os dias são curtos, o frio continua, o cansaço acumulado ainda pesa.
E é neste período que algo curioso acontece com as nossas práticas e intenções.
A motivação inicial - aquela que nos fez começar - já não está lá. Os resultados ainda não são visíveis. A novidade passou. E a prática começa a parecer apenas mais uma coisa na lista.
Não há um momento dramático de desistência. É uma erosão lenta. Um dia falta-se. Depois outro. Perde-se o fio.
E de repente já estamos em Março a pensar: "Talvez agora, com a Primavera, consiga recomeçar..."
Se isto lhe soa familiar, saiba que não está sozinho. É um padrão humano, não uma falha pessoal.
O que acontece debaixo da terra
Mas há algo que a natureza sabe e que nem sempre é obvio.
A Primavera não começa em Março. Ela começa agora. Debaixo da terra. Invisível.
As sementes que foram plantadas em Janeiro estão neste momento a fazer algo fundamental: a criar raízes. No escuro, no frio, sem nada visível a acontecer à superfície.
Este é o trabalho essencial. Não o crescimento que virá depois, mas a estrutura invisível que o tornará possível.
É aborrecido? Sim.
É invisível? Completamente.
É essencial? Absolutamente.
O que este período nos pede
Fevereiro não pede entusiasmo - esse já se foi.
Não pede motivação constante - isso, como provavelmente já percebeu, é uma fantasia.
Fevereiro pede outra coisa: consistência tranquila. Presença, mesmo quando a vontade não abunda.
É o período que separa quem tem raízes de quem tem apenas entusiasmo.
E a boa notícia é que criar raízes não exige heroísmo. Exige estrutura. Acompanhamento. Uma razão para aparecer mesmo quando não apetece.
Ouço frequentemente: "Sei o que preciso fazer. Só não consigo manter."
E compreendo. Porque durante muitos anos vivi exatamente isto.
O que a minha experiência mostra
Tem a ver com estrutura.
Quando há estrutura, Fevereiro deixa de ser o lugar onde se desiste. Torna-se o lugar onde as raízes ganham profundidade.
Uma possibilidade
Se está a ler isto e reconhece este padrão na sua vida - começar com entusiasmo, perder o fio em Fevereiro, querer recomeçar na Primavera - talvez faça sentido experimentar algo diferente este ano.
Não recomeçar outra vez sozinho. Mas criar, finalmente, a estrutura que lhe permite atravessar os "Fevereiros da sua vida".
Lourenço de Azevedo


Comentários
Enviar um comentário