Os maiores avanços científicos dos últimos 25 anos – e alguns a que deve manter-se atento

Embora o século XXI tenha sido acidentado, também nos trouxe inovações científicas e tecnológicas monumentais que mudaram o nosso mundo para melhor. Avanços na medicina permitiram a criação de curas genéticas inéditas, a energia de fusão aproximou-se mais da realidade, aprendemos mais sobre o passado antigo da Terra e, no campo da astronomia, vislumbrámos coisas que outrora pareciam impossíveis, nomeadamente um buraco negro.

Organizámos uma lista com as descobertas mais excitantes dos últimos 25 anos, juntamente com cinco intrigantes mistérios por resolver que poderão ser desvendados nas próximas décadas.

A conclusão do Projecto do Genoma Humano e o advento da vida sintética

Estes 60 tabuleiros contêm o genoma humano completo, sob a forma de 23.040 fragmentos de ADN clonado no Centro Sanger, em Cambridge, Inglaterra. O objectivo do Projecto do Genoma Humano era encontrar a sequência base de todos os genes do ADN humano, permitindo melhorar a criação de fármacos e compreender melhor as doenças genéticas.© James King-Holmes, Science Photo Library

Iniciado em 1990, o Projecto do Genoma Humano sequenciou com sucesso um genoma humano completo pela primeira vez em 2003, estabelecendo um importante ponto de referência para os aproximadamente três mil milhões de pares-base de ADN que compõem o esquema genético da nossa espécie. Foi o maior projecto biológico colaborativo da história e a sua conclusão deu origem a uma nova era da genómica que transformou inúmeros campos – desde os estudos forenses à antropologia, passando por testes de ADN e tratamentos genéticos para a doença de Huntington, entre outros.

Liderado pelo Instituto Nacional da Saúde dos EUA, o Projecto do Genoma Humano ajudou a acelerar o campo inovador dabiologia sintética, que pretende conceber novas formas de sistemas e organismos vivos. A capacidade de sequenciar genomas de organismos reais, desde nemátodos a seres humanos, abriu a porta para reescrever esse código de formas criativas. Para tal, os cientistas desenvolveram a primeira célula sintética em 2010, o primeiro ADN sintético em 2012 e os primeiros cromossomas sintéticos em 2014.

Uma microfotografia colorida, captada por um microscópio electrónico de varrimento de células Mycoplasma mycoides JCVI-syn1.0. Desenvolvida por investigadores no Instituto J. Craig Venter, a célula JCVI-syn1.0 foi a primeira célula a capaz de se auto-reproduzir controlada por um genoma sintético.© Thomas Deerinck, NCMIR / Science Photo Library

A descoberta e o desenvolvimento da CRISPR

Há algumas décadas, os cientistas observaram que algumas bactérias tinham uma espécie de sistema imunitário genético: quando eram atacadas por vírus, capturavam pedaços do ADN dos invasores e inseriam-nos no seu próprio genoma para se protegerem melhor de ataques futuros.

Este sistema natural denominado CRISPR, que significa “clustered interspaced short palindromic repeats”, foi adaptado e transformado numa ferramenta de edição genética que revolucionou inúmeras áreas, incluindo a medicina, a biotecnologia e a agricultura. Permitiu aos cientistas cortarem e colarem qualquer pedaço de ADN, desde pares-base individuais a conjuntos inteiros de genes.

Apresentada em 2012, a tecnologia de edição de genes baseada na CRISPR conduziu a várias inovações médicas, incluindo a primeira cura genética aprovada para a anemia falciforme e a beta-talassemia (Casgevy) e permitiu o nascimento do “Baby KJ”, uma criança que nasceu sem uma doença genética que seria fatal. Jennifer Doudna e Emanuelle Charpentier, pioneiras da CRISPR, ganharam um Prémio Nobel devido à criação da tecnologia em 2020.

“O desenvolvimento que mais me entusiasma aconteceu neste ano”, diz Doudna, que é a fundadora do Innovative Genomics Institute (IGI). Os investigadores desenvolveram e apresentaram uma terapia CRISPR personalizada para uma criança com uma doença ultra-rara em apenas seis meses. “É uma prova de que a edição genética personalizada para o tratamento de doenças raras já é possível”, afirma. “Isto vai mudar aquilo que podemos oferecer a milhares de crianças que nascem todos os anos com problemas que a medicina nunca viu.”

A CRISPR também está a promover um aumento dos desenvolvimentos nas áreas do clima e da arquitectura biotecnológica, desde culturas resistentes a doenças a micróbios que retêm carbono.

O primeiro bebé com três progenitores

Há quase uma década, em 2016, um bebé tornou-se a primeira criança a herdar ADN de três progenitores. Embora a vasta maioria do ADN do rapaz venha de uma mãe e um pai, um terceiro dador contribuiu com ADN mitocondrial saudável para o genoma do bebé. Esta técnica, denominada terapia de substituição mitocondrial é utilizada para reduzir os riscos de transmitir doenças mitocondriais raras. Em 2025, os bebés com três progenitores ainda pareciam saudáveis.

O AlphaFold resolve o “problema da dobragem das proteínas”

Durante décadas, os biólogos procuraram uma forma de prever o formato tridimensional das proteínas, os blocos de construção da vida, a partir de uma simples leitura dos seus componentes químicos. O formato de uma proteína determina a forma como esta funciona, do mesmo modo que o formato de uma chave determina a fechadura que pode abrir. Por isso resolver o “problema da dobragem das proteínas”, nome pelo qual o enigma era conhecido, daria aos cientistas o superpoder de criar moléculas, acelerando o desenvolvimento de fármacos capazes de salvar vidas.

É aqui que entra em cena o AlphaFold. Desenvolvido pelo laboratório DeepMind, da Alphabet, este programa de IA revolucionou o processo de prever a estrutura das proteínas, padrões de ADN/ARN e outros enigmas celulares. O programa permitiu aos investigadores analisar como os componentes das células se dobram e interagem muito mais depressa do que anteriormente, com resultados bastante próximos dos alcançados por processos experimentais meticulosos e morosos. Esse grande empurrão acelerou a investigação de candidatos a fármacos e dos mecanismos que sustentam a vida. Ganhou o Prémio Nobel da Química em 2024.

Um trabalhador da área da saúde injecta um paciente com uma vacina experimental de COVID-19 nesta imagem de infravermelhos captada em 2020.© Giles Price, National Geographic Image Collection

Inovações na área das vacinas salvam milhões de vidas

Um dos maiores feitos do século XX foi a distribuição generalizada de vacinas, um esforço que ajudou a erradicar doenças devastadoras como a varíola e a poliomielite.

O século XXI manteve o impulso. Assistimos, notavelmente, à criação da primeira vacina para o vírus do papiloma humano (HPV), aprovada em 2006, que contribuiu para uma diminuição de 62 por cento nas mortes causadas por cancro do colo do útero. Crê-se que os esforços globais para a distribuição da vacina tenham prevenido 1,4 milhões de morte no futuro.

O desenvolvimento e a aprovação de vacinas à base de ARN durante a pandemia da Covid-19, em 2020, foi uma vitória histórica que controlou a disseminação da Covid – salvando milhões de vidas. Agora a tecnologia de vacinas à base de ARN está a ser aperfeiçoada a fim de prevenir uma série de doenças infecciosas e até alguns cancros.

Imunoterapia de células-TcomCAR para tratar o cancro

Após anos de investigação, a primeira imunoterapia de células-T com receptor de antígeno quimérico (CAR) foi aprovada em 2017. Esta terapia utiliza células-T humanas geneticamente modificadas (que fazem parte do nosso sistema imunitário) para reconhecer e destruir células de determinados cancros. A abordagem revelou-se altamente eficaz no tratamento de alguns cancros, incluindo linfomas, leucemias e mieloma múltiplo.

Mais de 90 por cento dos pacientes entraram em remissão após o tratamento, que se calcula ter salvado dezenas de milhares de vidas até à data.

Invenção do grafeno

O grafeno é o material mais forte e mais fino que conhecemos. É composto por átomos de carbono que formam uma treliça bidimensional com um padrão de favos de mel. A sua teoria foi proposta em 1947, mas os cientistas só o produziram pela primeira vez em laboratório em 2004. A inovação ganhou o Prémio Nobel da Física em 2010.

Para além da sua finura e força superlativa, o grafeno é extremamente condutor e transparente. Devido às suas qualidades excepcionais, o grafeno permitiu avanços em diversas áreas e ajudou a produzir filtros de água muito mais eficientes, baterias que carregam mais depressa, células solares altamente duráveis e biossensores rigorosos, para mencionar apenas algumas tecnologias.

A descoberta do bosão de Higgs

O bosão de Higgs é uma partícula pequena, com uma massa apenas 150 vezes superior à de um protão, mas o seu impacto científico é colossal. Previsto pela primeira vez em 1964 pelos investigadores, incluindo o que lhe deu o nome, Peter Higgs, a partícula existiu apenas em teoria durante décadas, sendo a hipotética jóia da coroa do modelo padrão da física de partículas, que descreve as forças e os elementos fundamentais do universo. A partícula está associada ao campo de Higgs, um campo quântico que abrange todo o universo e confere massa a todas as suas partículas elementares.

No entanto, a detecção do bosão de Higgs permaneceu fora do nosso alcance até à construção do Grande Colisor de Hadrões no CERN – o maior e mais poderoso acelerador de partículas do mundo. Em 2012, o CERN confirmou, finalmente, a detecção da partícula, pondo fim a uma busca de décadas e corroborando o modelo padrão. Este feito conquistou o Prémio Nobel da Física em 2013.

Um solenóide de muão compacto (CMS), que, apesar do seu nome, é um enorme detector de partículas do Grande Colisor de Hadrões (LHC) no CERN, a ser utilizado para procurar o bosão de Higgs. O LHC no CERN ocupa um túnel circular subterrâneo com quase 27 quilómetros de circunferência.© Mark Thiessen, National Geographic Image Collection

As ondas gravitacionais foram detectadas pela primeira vez

Albert Einstein propôs pela primeira vez a ideia das ondas gravitacionais, ondulações no tecido do espaço-tempo em 1916, mas duvidava que algum instrumento fosse suficientemente sensível para captá-las. Após quase um século de esforços, os cientistas do Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO) conseguiram, finalmente, concretizar esse sonho com a primeira detecção de uma onda gravitacional, gerada pela fusão de dois buracos negros há cerca de 1.3000 milhões de anos.

Até 2025, já foram captadas centenas de ondas gravitacionais pelo LIGO e outros detectores, abrindo uma nova janela para o universo.

“Não é apenas uma forma diferente de observar o universo, mas uma tecnologia que ninguém imaginava há cem anos”, diz Córdova. “Há muito mais por fazer, mas deu-nos acesso e muitas descobertas.”

Por exemplo, as ondas gravitacionais revelaram fusões inesperadamente grandes e confirmaram várias teorias sobre os buracos negros, propostas por mentes brilhantes como Stephen Hawking e Roy Kerr. O feito também conquistou o Prémio Nobel da Física de 2017.

A energia de fusão atinge momentaneamente o ganho líquido

O Sol – e todas as estrelas – produz muita luz e energia fundindo átomos no seu núcleo – um processo denominado fusão nuclear. O controlo desta força literalmente estelar tem o potencial de abastecer o mundo com energia limpa em abundância.

Embora a energia gerada por fusão nuclear ainda esteja longe de ser uma realidade, alcançou um marco importante. Em 2022, os cientistas do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos EUA, atingiram o ganho líquido de energia, o ponto a partir do qual uma reacção de fusão produz mais energia do que consumiu. O sucesso foi repetido em 2023.

Estes resultados representam uma inovação na área da física – um combustível que gera mais energia do que absorve directamente. No entanto, o equipamento experimental no qual estes ganhos líquidos foram obtidos continua a precisar de muito mais energia do que produz, o que significa que as centrais de energia de fusão ainda são um objectivo distante.

Descoberta dos primeiros objectos interestelares

Em 2017, astrónomos descobriram o primeiro objecto interestelar conhecido – um objecto vindo de outro sistema estelar – a atravessar o nosso Sistema Solar. Conhecido como ‘Oumuamua, as suas estranhas propriedades deram origem a debates desde então (e não, não são extraterrestres). Dois outros objectos interestelares, ambos claramente cometas, foram detectados desde então: o 2I/Borisov em 2019 e o 3I/ATLAS em 2025.

Observatório Vera C. Rubin, que começou a funcionar em 2025, deverá detectar muitos mais destes turistas fascinantes ao longo dos próximos anos.

Esta imagem a cores de ângulo estreito da Terra, apelidada de Pale Blue Dot, faz parte do primeiro “retrato” do Sistema Solar captado pela Voyager 1, da NASA, a 14 de Fevereiro de 1990, a 3.700 milhões de quilómetros do Sol.© NASA / JPL

O Telescópio Event Horizon cria a primeira imagem de um buraco negro

Organizar uma sessão fotográfica de um buraco negro não é um feito fácil, mas a colaboração global que deu origem ao Telescópio Event Horizon (EHT) conseguiu fazê-lo em 2019. Ao sincronizar radiotelescópios de todo o mundo – criando, basicamente, um observatório do tamanho da Terra –, a equipa do EHT conseguiu captar imagens incríveis do buraco negro que se encontra no centro da galáxia Messier 87, a cerca de 55 milhões de anos-luz do nosso Sistema Solar.

Os robots chegaram aos confins do sistema solar

Ao longo dos últimos 25 anos, os nossos exploradores espaciais robóticos têm, invocando o espírito de O Caminho das Estrelas, ido até onde nenhuma sonda foi antes. As nossas naves espaciais já viajaram até todos os sítios, desde a corona solar até às regiões interestelares desconhecidas.

Voyager 1, da NASA, tornou-se a primeira nave espacial a entrar no espaço interestelar em 2012; na outra extremidade do espectro solar, a Sonda Solar Parker atreveu-se a mergulhar sete vezes mais perto do Sol do que qualquer missão anterior.

sonda New Horizons da NASAtambém foi a primeira nave espacial a sobrevoar Plutão em 2015, enquanto várias missões – desde a japonesa Hayabusa à OSIRIS-Rex da NASA – trouxeram amostras de asteróides até à Terra.

O Telescópio Espacial James Webb dá-nos a imagem mais antiga do universo

Esta imagem, uma das primeiras captadas pelo Telescópio Espacial James Webb, mostra a nebulosa Carina no meio de um campo polvilhado com estrelas.© NASA / ESA / CSA / STScI

No dia 25 de Dezembro de 2021, apaixonados pelo espaço de todo o mundo sustiveram a respiração quando o Telescópio Espacial James Webb (JWST), o observatório espacial mais potente alguma vez construído, foi lançado da Guiana Francesa. A partir da sua órbita, a cerca de 1,6 milhões de quilómetros da Terra, o JWST vislumbrou a alvorada do universo (descobrindo novos mistérios), espreitou o céu de exoplanetas distantes, proporcionou-nos novas vistas de objectos do nosso próprio Sistema Solar e produziu imagens fascinantes do nosso cosmo. Com uma potência cem vezes superior à do Telescópio Hubble, o JWST é o nosso olho mais apurado – e ainda agora começou a observar o universo.

A descoberta de milhares de planetas orbitando outras estrelas

Embora os primeiros exoplanetas tenham sido detectados na década de 1990, a era da descoberta exoplanetária só começou a sério com o lançamento d o Telescópio Kepler, da NASA, em 2009. Ao longo de quase uma década, o Kepler descobriu mais de 2.600 exoplanetas – um número impressionante que confirmou, finalmente, a existência de planetas de todos os tipos orbitando estrelas da nossa galáxia.

Desde que o Kepler se reformou, em 2018, uma nova geração de telescópios caçadores de planetas – incluindo o JWST e o Transiting Exoplanet Survey Satellite (TESS) da NASA – continuou a proporcionar-nos conhecimento sobre os mundos intrigantes que existem fora do nosso Sistema Solar. Descobrimos planetas onde chove metal, planetas potencialmente habitáveis e planetas “solitários”, que deambulam pelo espaço interestelar. Até 2025, foram confirmados 6.000 exoplanetas – e este número ainda vai aumentar.

Já é possível atribuir os desastres meteorológicos directamente às alterações climáticas

Há décadas que os cientistas sabem que o consumo humano de combustíveis fósseis está a causar a subida das temperaturas globais e, consequentemente, a ampliar eventos extremos como vagas de calor, furacões e incêndios florestais. No entanto, só em 2004 é que os investigadores atribuíram especificamente a gravidade de um desastre natural às alterações climáticas – neste caso, a vaga de calor mortífera ocorrida na Europa em 2003.

Este estudo assinalou o início da atribuição climática, um campo que isola o contributo humano para as mudanças complexas do clima e do ambiente na Terra. Desde então, descobrimos que as alterações climáticas podem aumentar as probabilidades de um evento de clima extremo, como a vaga de calor ocorrida na Europa em 2019, e intensificar estes desastres naturais. Por exemplo, o aquecimento causado pelos seres humanos foi associado às chuvas intensas do furacão Harvey e à vegetação excepcionalmente seca que alimentou os incêndios de Los Angeles em 2025.

O oceano profundo revela como a vida poderá ter começado

O século começou a todo o vapor com a descoberta, em 2020, da Cidade Perdida, um enorme campo de fendas hidrotermais, semelhante ao tipo de ambientes onde a vida poderá ter surgido na Terra. Desde então, os cientistas cartografaram montes submarinos escondidos, sondaram ecossistemas misteriosos no leito marinho e descobriram inúmeras formas de vida bizarras – incluindo o primeiro animal que põe os seus ovos em fendas hidrotermais de que temos conhecimento.

Tesouros arqueológicos há muito perdidos descobertos com o lidar

O LiDAR, que significa Light Detection and Ranging, é um sistema de detecção remota, que recebe a luz laser devolvida pelas superfícies para criar mapas 3D rigorosos. Esta técnica tornou-se amplamente acessível e prática para a realização de levantamentos arqueológicos ao longo das últimas duas décadas, conduzindo uma avalanche de descobertas sobre culturas e povoados do passado.

Por exemplo, os arqueólogos detectaram centenas de povoados previamente desconhecidos na Mesoaméricarevelando igualmente estruturas novas e fascinantes em sítios já conhecidos como Angkor Wat, no Camboja. O LiDAR tem sido revolucionário, sobretudo em regiões cobertas de folhagem densa ou zonas selvagens e isoladas, como a Mesoamérica e a Bacia Amazónica, espreitando sob a copa das árvores em busca de estruturas antigas.

Naufrágios polares redescobertos após mais de um século

Em 1845, uma expedição liderada pelo capitão Sir John Franklin partiu da Grã-Bretanha em busca da mítica Passagem do Noroeste, que ligaria os oceanos Pacífico e Atlântico no Árctico canadiano. A expedição terminou em horror e ruína. Ambos os navios, o HMS Erebus e o HMS Terror foram abandonados e todos os membros da tripulação morreram de doença e exposição aos elementos.

Esta imagem tridimensional mostra o Endurance, tal como foi encontrado no seu local de repouso final, no fundo do Mar de Weddell.© Falklands Maritime Heritage Trust

Setenta anos mais tarde, Ernest Shackleton partiu para a Antárctida no navio polar Endurance, cuja tripulação também teve de abandonar o navio, embora a maioria dos marinheiros tenha tido a sorte de sobreviver ao incidente.

Os três malfadados navios foram redescobertos: o Erebus em 2014, o Terror em 2016 e o Endurance em 2022. O esforço fantástico para localizar os navios reflecte avanços na exploração polar, arqueologia marinha e, no caso dos navios do Árctico, a memória e o contributo essencial das comunidades Inuit, que transmitiram histórias sobre os navios de geração em geração.

A família humana ganhou mais ramos

A nossa espécie, Homo sapiens, é a única linhagem sobrevivente da Terra, mas descobrimos muitos ou aprendemos mais sobre outros membros distintos da nossa família de hominíneos desde 2000. O Homo floresiensisdescoberto em 2003, viveu na ilha indonésia de Flores há cerca de 50.000 anos; estes parentes foram apelidados de “hobbits” devido à sua baixa estatura.

Descobertos pela primeira vez em África em 2008 e 2015, respectivamente, o Australopithecus sediba viveu há cerca de dois milhões de anos, enquanto o Homo naledi surgiu há cerca de 300.000 anos. Ambos revelaram estados de transição entre hominíneos anteriores e linhagens posteriores, incluindo a nossa. Por isso, embora sejamos os últimos humanos remanescentes, estamos longe de ser os únicos que caminharam sobre a Terra.

Um esqueleto composto de Homo naledi, rodeado por centenas de outros espécimes, encontrado no sistema de grutas Rising Star, na África do Sul.© Robert Clark, National Geographic Image Collection

Extracção de ADN antigo reescreve a história

Para além de descobrirem os ossos de novos parentes, os cientistas também inovaram no campo do ADN ancestral para sondar as suas relações genéticas. Os métodos utilizados para extrair e analisar este ADN antigo foram aperfeiçoados nos últimos 25 anos.

Em 2010, por exemplo, os cientistas relataram a descoberta dos denisovanos, uma linhagem humana arcaica que se extinguiu aproximadamente ao mesmo tempo que os neandertais, graças à extracção de ADN mitocondrial de um osso do dedo. Os restos do primeiro híbrido humano antigo, descendente de um neandertal e um denisovano, foram descobertos em 2012 e confirmados graças ao ADN antigo em 2018.

O ADN antigo também revolucionou a forma como compreendemos a história humana moderna, reconstruindo as linhagens de várias culturas nos últimos milénios e até acompanhando a propagação de doenças infecciosas nesses povos do passado.

Descoberta de penas de dinossauro

A descoberta dos primeiros tecidos moles de dinossauro em 2005, juntamente com muitas amostras de penas preservadas, confirmaram teorias anteriores, segundo as quais até pesos-pesados como o Tyrannosaurus rex poderiam ter penas – e talvez com cores exuberantes. Isto actualiza os pressupostos com décadas de que os dinossauros eram criaturas com escamas.

Múmias da Idade do Gelo impecavelmente preservadas descobertas no permafrost

À medida que as temperaturas globais aumentam, os restos de muitas criaturas extintas da “Idade do Gelo” do Pleistocénico estão a aparecer à medida que o solo outrora congelado chamado permafrost descongela. Embora o degelo do permafrost seja uma tendência muito preocupante, o lado positivo é o reaparecimento de múmias extraordinariamente preservadas, como um mamute de 40.000 anos e “Sparta”, uma cria de leão das cavernas com 28.000 anos. Os cientistas até conseguiram reanimar um nemátodo que ficou congelado no permafrost há 46.000 anos – provavelmente a crio-sesta mais impressionante do mundo.

Importantes, a serem verdade

Estas eventuais descobertas serão fabulosas – se forem confirmadas ao longo dos próximos anos.

Um possível nono planeta no sistema solar

Em 2016, os astrónomos Mike Brown e Konstantin Batygin especularam sobre a existência de um hipotético mundo gigante escondido cerca de 20 vezes mais longe do Sol do que Neptuno, uma afirmação sedutora que poderá explicar os estranhos movimentos dos objectos que residem nos confins do Sistema Solar.

Desde então, os cientistas estão à procura do dito Planeta Nove, que se estima ser cinco a dez vezes maior do que a Terra. O recente Observatório Vera C. Rubin poderá esclarecer-nos sobre este mistério ao longo dos próximos anos. Por ironia do destino, Mike Brown é também o astrónomo responsável pela proposta pela despromoção de Plutão para o estatuto de planeta anão. Se o Planeta Nove for sequer descoberto, Brown terá a rara honra de ter ajudado a subtrair e acrescentar um nono planeta ao Sistema Solar.

O Google afirma ter alcançado a supremacia quântica

A supremacia quântica, geralmente conhecida como vantagem quântica, é o limiar a partir do qual um computador quântico consegue executar uma tarefa específica que uma máquina clássica não conseguiria completar num prazo prático. A Google, em parceria com o Laboratório Nacional de Oak Ridge e a NASA, afirmou ter alcançado esta supremacia em 2019, depois de o seu processador quântico ter executado em 200 segundos uma tarefa de amostra que um super-computador clássico demoraria cerca de 10.000 anos a processar.

Esta pretensão de supremacia gerou debates e reacções adversas, por isso ainda não sabemos se será considerado o primeiro exemplo de supremacia quântica.

A energia escura pode não ser uma constante

A Via Láctea e Júpiter, o objecto mais brilhante do céu, em cima do Observatório Kitt Peak. Com quatro metros, o telescópio Mayall, o maior da montanha, alberga o Instrumento de Espectroscopia da Energia Escura.© Babak Trafreshi, National Geographic Image Collection

Há décadas que os cientistas presumem que o universo estava a expandir-se a uma velocidade constante e “energia escura” foi o termo utilizado para descrever esta constante. No entanto, novos resultados do Instrumento Espectroscópico de Energia Escura (DESI), instalado no Arizona, que começou a examinar o céu em 2021, sugerem que a expansão cada vez mais rápida do universo tem estado, na verdade, a abrandar.

Esta surpresa fascinante insinua que a energia escura é uma força em evolução e poderá não ser uma constante, questionando um dos pressupostos essenciais do modelo padrão da cosmologia.

Novos tratamentos e prevenções para perturbações neurológicas

Estima-se que 50 milhões de pessoas em todo o mundo padeçam de doença de Alzheimer, uma perturbação neurológica que causa perda de memória, confusão, alterações de humor e outros sintomas que podem afectar gravemente a vida. Contudo, uma nova classe de fármacos aprovados pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) denominados terapias anti-amilóides, parecem ser promissoras para tratar esta doença, visando e removendo as placas amilóides do cérebro, podendo abrandar a progressão da doença. Como estes fármacos só foram disponibilizados aos pacientes há poucos anos, a sua eficácia a longo prazo ainda está a ser avaliada.

Além disso, após a descoberta de uma ligação entre o vírus Epstein-Barr e a esclerose múltipla, os cientistas ganharam novas esperanças de conseguir tratar melhor ou até prevenir adoença auto-imune que enfraquece gradualmente a comunicação entre o cérebro e o corpo.

Um novo ensaio clínico em curso no Reino Unido está a testar esta hipótese com uma vacina.

Possível descoberta de bioassinaturas em Marte, Vénus e em exoplanetas

A ciência entrou numa nova fase da busca por vida extraterrestre com a detecção de possíveis bioassinaturas no nosso Sistema Solar e mais além. Em 2019, uma equipa relatou a presença do químico fosfina em Vénus, cuja origem poderá ser geológica ou biológica. No último ano, uma equipa relatou uma possível bioassinatura nos céus de um exoplaneta (os resultados do estudo ainda estão a ser discutidos) e o rover Perseverance, da NASA, descobriu potenciais sinais de vida microbiana antiga em Marte.

Nenhuma destas descobertas irá, remotamente, descobrir provas incontestáveis de vida extraterrestre e as três geraram polémica nos anos que se seguiram – uma reacção que será, provavelmente, a norma à medida que descobertas semelhantes se forem sucedendo ao longo dos próximos anos. Mas embora estes resultados permaneçam inconclusivos, demonstram que a busca por vida extraterrestre começa a estar assente num corpo crescente de provas empíricas e não em mera teoria e especulação.

O que poderá acontecer ao longo dos próximos 25 anos?

É difícil não pensarmos nos avanços científicos dos próximos 25 anos. Como irão novas tecnologias como a inteligência artificial, a energia verde ou a computação quântica reformular as nossas vidas e o nosso mundo até 2050

Ninguém sabe, mas Doudna tem uma recomendação.

“Aquilo que mais me impressiona nos últimos 25 anos foi a forma como muitas inovações tiveram origem em investigações fundamentais que não tinham qualquer aplicação prática evidente na altura”, diz ela. “A CRISPR é um exemplo perfeito disso: eu e os meus colegas estávamos a estudar como as bactérias combatem os vírus e esse trabalho, motivado pela curiosidade, levou-nos a uma tecnologia que está a transformar a medicina, a agricultura e até as abordagens para combater as alterações climáticas.”

Temos de manter este impulso científico, mas, até nas melhores condições, vai haver alguns desafios. “Levar estas ferramentas às pessoas que mais precisam delas – esse é o maior problema que ainda precisamos de resolver.”

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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