Ensinar História de Portugal é um tremendo erro?
Com um título obviamente provocatório — ou talvez não — convido o caro leitor a ousar viajar até à sua própria infância e adolescência.
Longe vão os tempos em que, no Estado Novo, era obrigatório memorizar, no ensino primário, os nomes das estações de caminho de ferro da metrópole e das colónias. As crianças de hoje, nascidas num mundo tecnologicamente avançado, onde tudo lhes surge de forma rápida, bela e atraente, tendem a perder não só a capacidade de ler e interpretar um texto, como também a de imaginar as imagens que a História descreve.
O acesso livre à tecnologia desde a mais tenra idade abre-lhes as portas de um mundo aparentemente perfeito, profundamente manipulador, que captura a sua atenção através de sensações que lhes dão um bem-estar imediato e fácil. Sem esforço. Sem perseverança. E muito menos reflexão.
Desta realidade ao total desinteresse pela maioria das matérias ensinadas na escola vai apenas um passo — e curto, por sinal.
De nada vale reclamar ou lutar contra as evidências: a tecnologia veio para ficar, e ainda bem. Resta-nos aprender a geri-la, para que nos seja útil e não o nosso cárcere de liberdade de pensamento.
É aqui que entra a HISTÓRIA DE PORTUGAL.
Como dá-la a conhecer às crianças e jovens de forma verdadeiramente eficaz? Ensiná-la é um erro? Pelo menos da forma como tantas gerações a aprenderam.
Seguir um manual frequentemente desinteressante ou escutar um professor que insiste em debitar dados históricos de forma formal e monocórdica já não funciona com jovens que não aceitam a aprendizagem como um “dever”. Tal como num tablet, tudo o que não interessa é passado para o lado e imediatamente esquecido.
Esta geração precisa de algo que a tecnologia ainda não consegue transmitir na totalidade: sensações e vivências reais.
Como podemos fazê-lo, então?
Começamos pelo essencial: falar de amor. É imprescindível que um professor AME a matéria que ensina. Só assim terá criatividade e energia para a transmitir a um público cada vez mais exigente e difícil de cativar.
A História de Portugal pode — e deve, na minha opinião — ser aprendida através do storytelling, a arte de contar histórias para transmitir conhecimento e criar ligação emocional com o público.
Com esta estratégia, os alunos têm a oportunidade de “viajar no tempo” através de narrativas sobre História, recheadas de emoção e curiosidades que prendem a atenção e despertam a vontade de saber mais.
Embora o conceito pareça moderno, a prática é antiga. Em Portugal, se recuarmos até 1862, encontramos uma das pioneiras no ensino através das histórias: D. Matilde de Sant’Anna e Vasconcelos Moniz Bettencourt, conhecida na época como Viscondessa das Nogueiras.
Matilde Isabel de Sant’Anna e Vasconcelos Moniz Bettencourt (1805-1888)
Nascida no Funchal, viveu toda a sua vida na ilha e criou — com admirável perspicácia — o livro “Diálogos entre uma avó e sua neta”, destinado a crianças dos cinco aos dez anos e aprovado pelo Conselho Geral da Instrução Pública. Embora quase esquecida pela História, deixou-nos um valioso legado de como a educação poderia chegar de forma simples e eficaz até às crianças, mesmo às mais pequenas.
“Neta. Quer a minha avó contar-me esta tarde alguma história sobre Portugal?
Avó. Sim, minha filha, falar-te-hei hoje de um grande homem, o conde D. Nuno Álvares Pereira. Quando o Mestre de Avis levantou o cerco de Torres Vedras, que ainda estava sujeita a Castela, houve grande número de pessoas que, não querendo ficar sob o poder dos castelhanos, rogaram a D. João as não deixasse expostas ao furor dos inimigos.” (…)
Regressemos agora a 2025 para analisar alguns exemplos práticos.
O que saberá um jovem atual acerca do final da monarquia em Portugal? Teremos coragem de descer do nosso “pedestal” pedagógico e perguntar-lhes, genuinamente, o que sabem?
Eu tive essa coragem — e ouvi vários alunos de 11 anos dizerem que sabiam apenas isto:
“O rei vinha de coche em Lisboa, levou um tiro e morreu.”
E se estes jovens tivessem visto entrar na sala um professor mascarado de D. Carlos, pronto a contar na primeira pessoa a sua história? Ou se tivessem pesquisado e provado um prato apreciado pelo rei, ele que era conhecido pelo gosto refinado pela boa gastronomia?
E se tivessem observado os quadros pintados pelo próprio monarca, ou lido as histórias que escreveu? Saberiam que foi um artista, um homem de imensa cultura?
Uma visita à Tapada de Mafra
Talvez, se com a escola visitassem a Tapada de Mafra, se sentassem sobre as folhas de cedro que cobrem o chão, respirassem os aromas da floresta e observassem gamos e javalis, guardassem na memória que aqueles reis adoravam ali passear, caçar, conviver — que eram, afinal, seres humanos como qualquer um de nós.
E se os alunos ouvissem uma narrativa sobre a fome, o frio, o analfabetismo e a miséria que tantas crianças da época viviam e que alimentaram a revolta que culminou na morte do rei e do príncipe herdeiro?
Como seria inspirador transformar a sala de aula num verdadeiro “campo de batalha” cultural, onde metade da turma defenderia os valores e poderes monárquicos e a outra metade as motivações revolucionárias!
Em síntese, a questão não reside em ensinar ou não ensinar História de Portugal, mas sim em como o fazemos. Num contexto social e tecnológico profundamente transformado, persiste a urgência de repensar os modelos pedagógicos herdados do passado. A simples transmissão de conteúdos, desprovida de envolvimento emocional e de experiência sensorial, revela-se insuficiente para uma geração que exige significado, participação e autenticidade.
A História — enquanto testemunho coletivo e fundamento identitário — não pode continuar confinada ao manual ou à exposição monocórdica. Precisa de recuperar a sua dimensão humana, narrativa e vivencial, devolvendo aos alunos a capacidade de imaginar, sentir, compreender e problematizar o legado histórico.
O storytelling, a exploração ativa, o contacto direto com espaços significativos e a recriação pedagógica de episódios marcantes constituem ferramentas interessantes para reconstruir essa ponte.
A verdadeira missão educativa consiste em transformar o ato de aprender História numa experiência intelectualmente rigorosa, emocionalmente envolvente e socialmente relevante. Só assim garantiremos que as novas gerações conhecem e compreendam o seu passado, o reconhecem como parte estruturante da sua identidade e responsabilidade cívica e construam o seu futuro de forma consciente e segura.
Que estes 900 anos sejam um farol: seguros no passado, firmes no presente e audaciosos no futuro.
Referência bibliográfica: BETTENCOURT, Mathilde Isabel de Sant’anna e Vasconcelos Moniz, Lisboa, 1862.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
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