Amor ou medo? Caso de Noelia Castillo é um espelho do que evitamos ver
Um artigo de opinião sobre o caso de Noelia Castillo, assinado por José Borralho, presidente da JB TOMORROW GROUP SGPS e autor do livro "MEDO – Como transformar as ameaças em forças".
"O caso de Noelia Castillo, a jovem catalã que, aos 25 anos, enfrentou um longo processo judicial até ver reconhecido o seu direito a morrer com dignidade, não é apenas um caso jurídico. É um espelho. Um daqueles espelhos que não mostra apenas o que está à superfície, mas aquilo que evitamos ver: os nossos medos mais profundos, os nossos apegos mais silenciosos, a nossa dificuldade crónica em lidar com a perda.
Agora, com o Tribunal Supremo de Espanha a preparar-se para decidir se um familiar pode contestar a decisão de alguém plenamente consciente que quer recorrer à eutanásia, a discussão ganha uma dimensão ainda mais delicada. Porque deixa de ser sobre um caso isolado e passa a ser sobre todos nós. Sobre aquilo que acreditamos ser amor… e aquilo que, na verdade, é medo.
A decisão de partir é, talvez, o ato mais íntimo que um ser humano pode tomar. E, ainda assim, insistimos em querer participar nela.
Crescemos a ouvir que a vida é o bem supremo. Que deve ser protegida a todo o custo. Que desistir é fraqueza. Que lutar é sempre a resposta. E essa narrativa molda-nos. Faz-nos acreditar que prolongar é sempre cuidar. Que insistir é sempre amar. Que manter alguém vivo — independentemente das condições — é um dever moral.
Mas ninguém nos ensina a fazer a pergunta que realmente importa. E quando viver deixa de ser viver… mas apenas existir?
Quando o corpo se torna uma prisão onde já não há liberdade, apenas resistência. Quando a dor deixa de ser episódica e passa a ser um estado permanente. Quando o tempo já não traz futuro, apenas prolonga um presente que dói.
Nestes momentos, a pergunta muda de forma radical. Já não é “queres viver?”, é “queres continuar assim?”.
E essa resposta — por mais desconfortável que seja — não pode ser coletiva. Não pode ser negociada em família. Não pode ser decidida por quem observa de fora aquilo que só quem vive por dentro consegue verdadeiramente sentir.
E, no entanto, é precisamente aqui que mais interferimos. Dizemos que é por amor. Que é por esperança. Que é por não desistir. Mas, se tivermos a coragem de ir mais fundo, encontramos outra coisa.
Medo. Medo de perder. Medo de ficar sozinho.
Medo do silêncio que fica depois de alguém partir. Medo da saudade que ainda nem começou… mas que já dói.
E então fazemos algo profundamente humano — mas também profundamente egoísta: pedimos ao outro que fique… para não termos de sentir isso.
É duro dizer isto. Incomoda. Desafia a imagem que temos de nós próprios como pessoas que amam, que cuidam, que protegem. Mas muitas vezes, quando insistimos que alguém continue, não estamos a proteger essa pessoa.
Estamos a proteger-nos a nós. A proteger-nos do vazio. Da ausência. Da quebra de rotina emocional que aquela pessoa representa.
Porque, no fundo, a presença do outro dá-nos estrutura. Dá-nos identidade. Dá-nos conforto. E quando essa presença ameaça desaparecer, sentimos que uma parte de nós vai com ela.
E é aí que o amor se mistura com o apego. E o apego… não é amor.
O apego é a necessidade de manter algo ou alguém para que nós possamos continuar a sentir-nos inteiros. É uma forma subtil de dependência emocional. É querer que o outro exista… não necessariamente pelo bem dele, mas pelo impacto que tem em nós.
E quando esse apego se manifesta num momento extremo — como o fim da vida — torna-se ainda mais evidente.
Chamamos-lhe luta. Chamamos-lhe coragem. Chamamos-lhe fé. Mas, muitas vezes, é apenas isto: incapacidade de deixar ir.
Eu sei-o porque vivi isso de forma profundamente pessoal.
O meu pai, num momento em que a doença já não deixava espaço para ilusões, tomou uma decisão clara: não queria cuidados intensivos. Não queria prolongar a vida à custa de máquinas. Não queria existir sem dignidade.
E naquele instante, tudo dentro de mim entrou em conflito. O filho queria agarrá-lo. Queria mais tempo. Queria adiar o inevitável.
Mas havia outra parte de mim — mais silenciosa, mais consciente — que começava a perceber algo difícil de aceitar: aquilo não era sobre mim.
Chegámos a falar com a Dignitas, na Suíça. Explorámos cenários que nunca imaginei ter de considerar. E cada passo nesse processo era um confronto direto com os meus próprios medos. Não com a morte dele. Mas com a minha vida sem ele.
E é aqui que está o ponto essencial deste debate: o sofrimento de quem fica não pode ser argumento para prolongar o sofrimento de quem quer partir. Mas é exatamente isso que, tantas vezes, acontece. Disfarçamos o nosso medo de saudade com argumentos de esperança. Disfarçamos o nosso apego com discursos de amor. Disfarçamos a nossa dificuldade em aceitar com narrativas de luta.
E, sem nos apercebermos, colocamos o outro numa posição injusta: a de ter de continuar a sofrer… para nos poupar a dor de perder.
Isto não é solidariedade. Não é compaixão. É medo.
E talvez seja esta a parte mais difícil de aceitar: que, nestes momentos, o maior obstáculo à dignidade de quem quer partir não é a lei, nem o sistema, nem a medicina. Somos nós.
A nossa incapacidade de lidar com a perda. A nossa resistência à impermanência. A nossa necessidade de controlar aquilo que, por natureza, é incontrolável.
Amar alguém verdadeiramente exige algo muito maior do que proteger a sua vida a qualquer custo. Exige maturidade emocional. Exige consciência. Exige uma coragem quase brutal.
A coragem de aceitar que o outro tem o direito de decidir… mesmo quando essa decisão nos destrói. Porque há uma verdade simples — e profundamente desconfortável: a vida pertence a quem a vive.
E há momentos em que continuar não é viver. É apenas prolongar. Talvez esteja na altura de redefinirmos o que significa estar ao lado de alguém no fim. Não como quem insiste. Não como quem impõe. Mas como quem acompanha. Com presença. Com respeito. Com amor… sem apego. Porque no fim, a questão não é jurídica. Não é médica. Não é sequer moral. É emocional.
É sobre a nossa capacidade de amar sem precisar de controlar. De sentir sem fugir. De perder… sem nos perdermos.
E talvez a maior prova de amor que existe não seja impedir alguém de partir. Mas sim olhar nos olhos de quem amamos, com tudo a tremer por dentro, e dizer: “Eu vou sentir a tua falta… mas não vou impedir a tua liberdade.”


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