Mãos dadas são amor ou medo? E talvez esteja na hora de admitirmos isso
Mãos dadas são amor ou medo? E talvez esteja na hora de admitirmos isso
Hoje, dar a mão tornou-se um dos seus sinais de amor mais imediatos e menos questionados. Mas até que ponto este gesto traduz verdadeiramente ligação, e não apenas necessidade? Entre a aparência e a experiência íntima, há que fazer uma leitura crítica dos códigos emocionais que tomámos como prova e que, talvez, digam menos do que pensamos sobre o que realmente sentimos. Um artigo assinado por José Borralho, autor do livro "Medo - Como transformar as ameaças em forças"
Estão por todo o lado, em todos os momentos, em todas as cidades. Gestos que a sociedade transformou em prova. Não em expressão, em prova. Dois corpos que caminham lado a lado, duas mãos entrelaçadas, e de imediato criamos uma narrativa: estão bem, estão ligados, há amor ali. É automático, quase instintivo. Como se aquele pequeno contacto físico tivesse o poder de validar algo tão complexo, tão invisível, tão impossível de medir como o amor. Falo das “mãos dadas”, não entre relações parentais, mas entre pessoas adultas. E questiono, eu que não gosto de dar a mãos a adultos, a menos que precisem de apoio claro.
O problema nunca foi o gesto. O problema foi aquilo que decidimos que ele significa. Porque, convenhamos, talvez estejamos todos a viver dentro de uma mentira confortável.
Vivemos numa época que perdeu a capacidade de confiar no invisível. Já não nos basta sentir, precisamos de ver, de confirmar, de mostrar. O amor deixou de ser uma experiência interna para se tornar um fenómeno externo. Algo que se exibe, que se valida, que se prova. E nesse processo, agarrámo-nos, literalmente, a símbolos. As mãos dadas são um deles. Talvez o mais simples, talvez o mais poderoso, talvez o mais enganador.
Vivemos numa época que perdeu a capacidade de confiar no invisível. Já não nos basta sentir, precisamos de ver, de confirmar, de mostrar.
Porque há mãos dadas que nascem do amor. Mas há muitas que nascem do medo.
Medo de perder. Medo de não ser suficiente. Medo de que, se se largar, o outro desapareça. Medo do silêncio que surge quando não há nada a segurar. E então segura-se. Não por escolha, mas por necessidade. Não como expressão, mas como regulação emocional. Um contrato silencioso que ninguém verbaliza, mas que ambos sentem: “fica aqui, não te afastes, não me deixes cair.”
E o mais inquietante é que, por fora, ninguém distingue. Parece amor. Tem a estética do amor. Tem o comportamento do amor. Mas, por dentro, muitas vezes, é apenas ansiedade organizada.
Talvez por isso estejamos rodeados de relações altamente visíveis… e profundamente frágeis.
Relações que se mostram mais do que se sentem. Que comunicam mais do que vivem. Que seguram mais do que confiam. E depois há o outro lado. O lado que incomoda porque não encaixa. As pessoas que não dão a mão. Que não sentem essa necessidade. Que caminham ao lado sem contacto, sem esse gesto que o mundo aprendeu a interpretar como essencial. E essas pessoas são rapidamente classificadas. Frias. Distantes. Pouco afetivas. Como se a ausência de um gesto fosse automaticamente a ausência de sentimento. Mas e se estivermos, mais uma vez, a interpretar ao contrário?
E se não dar a mão não for ausência… mas excesso de estabilidade? E se for a expressão de alguém que não precisa de usar o outro como âncora emocional? De alguém que não vive com o medo constante da perda e, por isso, não precisa de segurar para garantir presença? E se for, simplesmente, uma forma diferente — e talvez mais livre — de amar?
Isto não é confortável de aceitar. Porque desmonta um modelo inteiro de validação emocional. Obriga-nos a confrontar uma possibilidade desconcertante: a de que muitos dos gestos que romantizamos não são sinais de força… mas mecanismos de compensação.
E se não dar a mão não for ausência… mas excesso de estabilidade? E se for a expressão de alguém que não precisa de usar o outro como âncora emocional?
E é aqui que tudo se torna ainda mais interessante. Porque, no meio desta narrativa construída, existem relações que não se encaixam em lado nenhum. Relações que não têm mãos dadas na rua, que não têm símbolos visíveis, que não têm sequer nome que as organize. E, ainda assim, carregam uma intensidade que desarma qualquer teoria.
Relações onde cada olhar diz mais do que qualquer gesto público. Onde o toque - quando acontece - não é rotina, é acontecimento. Onde um beijo, longe do olhar dos outros, tem mais verdade do que mil demonstrações expostas. Relações que não existem para fora… porque já existem em excesso para dentro. E isso desorganiza tudo.
Porque nos obriga a aceitar que o amor não precisa de palco. Não precisa de validação. Não precisa sequer de coerência com aquilo que a sociedade definiu como “relação saudável”.
Mas também aqui existe uma armadilha subtil. Nem tudo o que não se mostra é liberdade. Há relações invisíveis que são profundamente livres… e há outras que vivem escondidas porque não podem existir plenamente. E a diferença entre estas duas realidades não está no gesto. Está na origem. E voltamos sempre ao mesmo ponto. A única pergunta que realmente importa.
Não é se há mãos dadas. Não é se há toque. Não é se há demonstração.
Porque o amor verdadeiro, aquele que poucos conseguem sustentar, não precisa de prova constante. Não precisa de se afirmar a cada passo.
É esta: O que está por trás disso? Se é escolha… ou se é necessidade. Se é liberdade… ou se é medo. Se é presença… ou se é tentativa de preencher um vazio.
Porque o amor verdadeiro, aquele que poucos conseguem sustentar, não precisa de prova constante. Não precisa de se afirmar a cada passo. Não vive de garantias físicas. Vive de algo muito mais difícil de alcançar: confiança emocional.
E talvez seja isso que mais assusta. Porque confiar implica largar. E largar implica enfrentar a possibilidade de perder. E muitos preferem segurar… mesmo que isso signifique nunca realmente ter. No meio de tudo isto, talvez a maior provocação seja esta: passámos anos a aprender como demonstrar amor, mas quase ninguém nos ensinou como senti-lo sem depender dessas demonstrações. E então confundimos intensidade com verdade, proximidade com ligação, toque com presença. Mas não são a mesma coisa. Nunca foram.
E talvez maturidade emocional - aquela que não se ensina, que se conquista - seja precisamente este ponto raro de equilíbrio: conseguir dar a mão quando isso nasce de dentro, mas não precisar dela para saber que se está ligado. Conseguir caminhar ao lado de alguém sem o impulso constante de segurar, sem a ansiedade de garantir, sem o medo de que a ausência do gesto signifique a ausência do amor. Porque, no fim, tudo se resume a algo desconcertantemente simples e profundamente difícil: o amor não está na mão que se dá.
Está naquilo que permanece… quando ela se abre.
José Borralho
Presidente da JB Tomorrow Group SGPS
Autor do livro Medo – Como transformar as ameaças em forças


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