O que é a fibromialgia? Nove perguntas sobre cansaço permanente, sono alterado, névoa mental e dores em todo o corpo

 

O que é a fibromialgia?

É uma doença crónica caracterizada por dores ósseas musculares e esqueléticas, generalizadas, que afetam todo o corpo. Instala-se de forma progressiva e as dores são persistentes, arrastando-se no tempo. As dores são mais acentuadas em certos dias e em certas zonas (ombros e coxas, habitualmente), e muitas vezes paralisantes. “Esta dor resulta do deficiente processamento do estímulo doloroso”, diz Fernando Pimentel, médico reumatologista e presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia.

Quais as principais queixas?

A queixa principal é a dor e está presente na esmagadora maioria dos casos. O segundo sintoma — muito incapacitante e persistente — é a fadiga. Mas existem outros frequentes, explica o também professor de reumatologia na Nova Medical School e coordenador do Serviço de Educação Pré e Pós-graduada da ULS Lisboa Ocidental. “São eles: dificuldade de concentração, de memória [alguns doentes falam em nevoeiro mental], graus de ansiedade e de depressão. Algumas pessoas revelam intolerância ao ruído, têm dificuldade em estar em ambientes com muita gente a falar alto e intolerância à luz.”

Outro sintoma frequente é a perturbação do sono, desde a dificuldade a adormecer ao sono superficial. Muitos doentes têm insónias, acordam mais cedo do que seria suposto, relatam não ter um sono reparador ou, quando acordam, sentem que não descansaram verdadeiramente.

Como se chega ao diagnóstico?

O diagnóstico precoce é quase inexistente. A doença está associada a sintomas que se instalam progressivamente e que podem induzir em erro. “As pessoas começam a sentir-se cansadas, acham que se deve a problemas do dia a dia e não valorizam os sintomas.” É a persistência e intensificação destas queixas, sobretudo a fadiga e a dor, que leva à procura de ajuda, que pode demorar meses.

Além da história clínica, é muito importante a observação da pessoa – o exame objetivo. “Às vezes, quando observamos podemos identificar aspetos que podem amplificar o quadro doloroso e permitem fazer o diagnóstico.”

Perante alguns exames complementares de diagnóstico (análises ao sangue, Raio-X, TAC ou outros), é muito comum ter resultados normais. “Uma pessoa com fibromialgia tem múltiplas queixas e quando  não encontramos nada de especial nos exames temos de explicar que é mesmo assim porque se o diagnóstico fosse o de outra doença, seria normal ter resultados alterados. Ou seja, exames sem alterações reforçam o diagnóstico de fibromialgia.”

Isto pode deixar algumas pessoas confusas e o papel do médico é essencial: “Temos de explicar que não estão loucas e que é normal, nesta doença, sentirem dor e receberem exames com resultados normais.”

Há como que uma exclusão de doenças. Vão-se fazendo exames de acordo com alguns sinais, resultados das análises, algum marcador suspeito e à medida em que estes forem dando negativos essas doenças são eliminadas até se chegar ao fim da linha. É aí que está a fibromialgia, conhecida também como doença silenciosa.

Como se trata?

A primeira coisa a fazer é explicar às pessoas quais os principais sintomas da doença e que, apesar de causar muito sofrimento, as análises ao sangue ou os exames complementares de diagnóstico (exames de imagem), à partida, vão estar normais. Esta explicação vai permitir ao doente gerir a sua própria doença.

“Não existem tratamentos dirigidos especificamente para a fibromialgia, mas sim para controlo dos sintomas, que ajudam a melhorar a qualidade de vida”, explica Fernando Pimentel.

Uma das principais formas de intervenção é a alteração dos estilos de vida: a prática de exercício físico e a higiene do sono. O exercício físico tem de ser muito bem prescrito e personalizado, adaptado a cada pessoa. “Temos de avaliar, ver qual é o seu desempenho, quais são as limitações físicas e adaptar ao ritmo de cada um.”

Recomenda-se a aposta na flexibilidade, mas também em exercícios de carga. “Estes exercícios, muitas vezes, iniciam-se só com o peso da própria pessoa, sem pesos externos, para manter e reeducar o músculo.” Se, por um lado, é importante que a pessoa escolha a atividade de que mais gosta, por outro, há que entender até onde pode ir.

Estas pessoas podem ter perturbações cardíacas e respiratórias, podem estar em má forma e, nestes casos, é preciso melhorar o desempenho cardiovascular. Caminhar, correr, andar de bicicleta, dançar, ir à piscina podem ser opções. A Organização Mundial da Saúde indica que devemos fazer uma hora de exercícios, “que pode ser dividida em vários blocos superiores a dez minutos”.

É também recomendada uma boa higiene do sono. Fernando Pimentel recomenda evitar ecrãs de computador e de telemóvel duas horas antes de ir para a cama e optar por fazer uma atividade relaxante: uma meditação, ver um filme ou ouvir uma música tranquila, fazer croché ou ler um livro.

Também se deve evitar café, chá, bebidas alcoólicas ou estimulantes e tabaco. Antes de adormecer pode ainda fazer alguns exercícios de flexibilidade, respirações profundas e tentar relaxar o corpo… “Devemos dormir sete a oito horas por dia e definir uma hora  para deitar e para acordar.”

É sugerida muitas vezes fisioterapia na água ou tratamentos com quente e frio, que ajuda com os músculos.

Qual a especialidade médica que se deve procurar?

O primeiro passo deve ser procurar o médico de família. “Muitas pessoas podem ser diagnosticadas e até tratadas por este profissional. Mas não é simples ter a certeza do diagnóstico. Se houver dúvidas devem ser reencaminhadas para a reumatologia, a especialidade mais adaptada e preparada para receber e acompanhar estes doentes.”

É importante o doente ser acompanhado por equipas com profissionais de várias áreas, como psicólogos, especialistas em motricidade humana e educação física, fisioterapeutas, médicos de outras especialidades, dependendo do doente e das complicações associadas que possa ter.

Se for seguido em reumatologia, quando estiver estabilizado pode manter as consultas, uma a duas vezes no ano, para garantir a vigilância de forma adequada, mas pode também ser acompanhado pelo seu médico de família.

Que medicamentos costumam ser prescritos?

“As organizações internacionais identificaram alguns medicamentos que podem ajudar neste contexto: antidepressivos, gabapentinoides [utilizados na dor neuropática] e analgésicos.”

O reumatologista costuma ver casos de pessoas medicadas com opioides fortes, mas não são recomendados. “Diria até que deve ser evitado, pois a eficácia é questionável e os efeitos nocivos desses medicamentos são frequentes. Podemos experimentar anti-inflamatórios, mas a probabilidade de insucesso é grande.”

Pode ser também recomendada a toma de vitamina D — que está em défice numa franja considerável da população portuguesa —, relaxantes musculares, entre outros.

Sabe-se quantas pessoas afeta a doença?

A prevalência desta doença é de 2 a 8% das mulheres a nível mundial. Afeta sobretudo o sexo feminino, o que não significa que não haja homens com a doença, mas é raro.

Quais os fatores que conduzem a esta doença?

É uma doença multifatorial. “Existem causas de natureza genética e muitas situações de stress, sobretudo físico e psicológico, na infância e na adolescência, poderão ser gatilhos para desencadear a doença”, destaca o reumatologista.

É possível continuar a trabalhar?

Em fases críticas, quem tem fibromialgia pode ter grandes perturbações de sono, dor, cansaço e grande dificuldade em cumprir horários rígidos. O ideal seria ter um apoio da medicina do trabalho para ter maior flexibilização de horário e evitar trabalhos que envolvam movimentos muito repetitivos ou com grandes cargas. “É desejável que as pessoas se mantenham integradas no ambiente profissional, pois continuar a trabalhar é um sinal direto de que estão controladas e se sentem válidas.”

Fernando Pimentel reforça esta ideia com base nas conclusões de alguns estudos que indicam que as pessoas com estas e outras doenças reumáticas têm pior qualidade de vida quando se reformam. “Costumo dizer aos doentes que vamos tentar encontrar um equilíbrio e estar bem o suficiente para continuarem a trabalhar. O objetivo é manter as pessoas ocupadas a desempenharem a sua função.”

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