A culpa como ferramenta de controlo, por Vera Xavier
Sobre quem inventou a tua consciência culpada, porque foi tão conveniente e o que fazer com isso agora.
Era uma vez um jardim. Uma mulher. Uma serpente, um fruto e uma escolha. Entraram todos num bar e… Vera, não comeces.
Bom, desde esse momento fundador, que a culpa entrou no mundo com uma força devastadora e com um rosto, o da Eva, e ficou. Instalou-se confortavelmente. Durante milénios foi o instrumento mais eficaz de controlo social que a humanidade alguma vez produziu, mais poderoso do que qualquer exército, mais duradouro do que qualquer lei, porque opera de dentro para fora e não precisa de vigilância exterior. A pessoa vigia-se a si própria. Hum, é elegante, convenhamos.
Não foi invenção exclusiva do Cristianismo, perdão, do Catolicismo, embora ele a tenha aperfeiçoado com uma mestria notável. Todas as grandes tradições religiosas têm o seu mecanismo de culpa, o karma mal interpretado que pune, o pecado original que mancha, a impureza ritual que exclui, a desonra familiar que persegue. São geografias diferentes do mesmo território, porém, com o mesmo intuito, a consciência humana transforma-se em tribunal permanente, em sessão non-stop, sem direito a advogado e com sentença já decidida à partida. Culpada. Sempre culpada. De alguma coisa. Tantas vezes nem sabemos do quê, mas ela faz-se sentir. São muitos milénios de retórica…
A Teosofia, que esteve na ordem do dia cá por casa (estive a ver o documentário On Fire, no Youtube. Recomendo), oferece uma perspectiva radicalmente diferente e muito mais generosa para a natureza humana. Helena Blavatsky, que já aqui aflorámos noutras crónicas, argumentava que a alma humana não nasce manchada nem defeituosa, nasce em aprendizagem. A diferença é imensa: num caso és um ser caído que precisa de redenção exterior, no outro és um ser em evolução que precisa de consciência interior. Num caso dependes de um intermediário que te absolva. No outro és a tua própria autoridade espiritual e salvação. É fácil perceber qual das duas versões convinha mais a quem queria manter o poder.
Krishnamurti, esse senhor que ouvi em voz própria (em documentários, claro está) e que tem uma cadência que por si só já é um ensinamento, dizia que a culpa é uma forma de violência que exercemos sobre nós próprios. Não é humildade, não é consciência moral, não é crescimento espiritual. É auto-flagelação com uma capinha de falso moralismo. E acrescentava, com aquela precisão cirúrgica que lhe era própria, que uma mente culpada é uma mente controlada, porque uma pessoa que se sente permanentemente em falta não tem energia nem clareza para questionar o sistema que a fez sentir assim. É um mecanismo perfeito de controlo!
Pensa um momento em quantas vezes por dia sentes culpa. Pela fatia de bolo. Por não teres ligado à mãe. Por teres dito não. Por teres dito sim. Por quereres mais. Por teres menos paciência do que achas que devias ter. Por não seres a profissional, a mãe, a filha, a amiga, a companheira, a nora, a enfermeira, a assistente social que o guião sempre vigente estipula. A culpa está em todo o lado, tão omnipresente que já nem damos por ela, como o ruído de fundo de uma cidade que deixámos de ouvir porque nunca pára.
E aqui está o busílis que ninguém nos ensina: há uma diferença fundamental entre culpa e responsabilidade. A responsabilidade diz 'fiz algo que não estava alinhado com os meus valores, vou corrigir e aprender e 'não repetir.' É construtiva, é breve, aponta para a frente. A culpa diz 'sou má pessoa, não valho um caracol, nunca vou conseguir chegar lá.' É destrutiva, é crónica, aponta para a 3a dimensão. Uma edifica. A outra paralisa. E o sistema, seja ele religioso, cultural ou familiar, tem todo o interesse em que vivamos na segunda e nunca cheguemos à primeira. Ou, tenho uma explicação ainda melhor: A responsabilidade é o GPS que te diz 'recalculando' quando erras a estrada. A culpa é o GPS que te manda parar o carro, sair, sentar no passeio e chorar o percurso que não fizeste. É possível ainda que uma gaivota te brinde. Inútil e com mau sinal. Não disperses, Vera.
Ora bem, a culpa familiar merece um parágrafo próprio porque é a mais sofisticada de todas. Não há leis nem decretos, é mesmo herdada. Vem em forma de suspiro. De olhar. De 'não faz mal, eu fico bem’, dito com uma entoação que claramente diz que faz muito mal e que não fica nada bem. Vem da frase 'depois de tudo o que fiz por ti', que é menos uma frase e mais uma divida emocional com juros compostos. É transmitida de geração em geração com o cuidado e a regularidade com que se transmitem a receita de bolo de limão de família, e é tão naturalizada que raramente conseguimos ver de onde vem e a quem serve.
Nas relações íntimas, o controlo raramente chega com cara de controlo. Não se apresenta com um pin a dizer ’Vim dominar-te’. Chega com expressão de amor, de preocupação, de "faço isto porque me importo contigo, meu bombom”, que é uma das frases mais perigosas da língua portuguesa. Chega no ciúme apresentado como prova de amor, quando ciúme não é amor coisíssima nenhuma! É medo; é insegurança; são traumas de infância que levam à necessidade patológica de posse. Chega no parceir@ que vasculha o teu telemóvel, na amiga que se ofende quando tens planos sem ela, na mãe que adoece sempre que decides algo por ti própria. É um controlo que usa as tuas emoções como alavanca e a tua culpa como um poderoso combustível. E o mais corrosivo de tudo? O controlador raramente sabe que controla. Acredita genuinamente que ama. Retorcido, não é? O que torna impossível acusá-l@ de má-fé e muito fácil continuares a ceder, a aceitar, a convencer-te de que és tu que estás errada. ’As relações são todas assim.’ Não, não são! Repara que só nos fecham as más notícias. As boas não são divulgadas, já pensaste nisso?
Mais, o teu corpo sabe onde está a linha limite. A tua cabeça é que insiste em negociá-la. E não ouças o coração porque ele quer é amar. Ele não tem critério e acredita que eles podem mudar. Outra forma de controlo.
A linha entre amar alguém e ser controlado por alguém é mais ténue do que gostaríamos. Mas a boa notícia é que existe e senão a vês cria-a!
A pergunta que Krishnamurti nos deixaria, e que eu te deixo, não é 'como me livro da culpa'. É 'a quem serve a minha culpa?' Porque quando conseguires responder a isso com honestidade, vais perceber que a maior parte da culpa que carregas não é sequer tua. Nunca foi. Foi-te entregue com muito cuidado por pessoas que também a receberam com muito cuidado de quem veio antes delas. É um legado que não pediste e que tens o direito, e talvez a responsabilidade, de não transmitir. Pára esta roda.
A consciência moral existe e é necessária. É o que nos permite viver em comunidade, respeitar o outro, crescer como seres humanos e divinos. Mas consciência moral não é culpa crónica. É pode ser uma bússola, mas nunca uma prisão.
Deixo-te uma sugestão de trabalho: nas próximas semanas quando sentires a danada, pára, faz aquela pergunta e substitui esse pensamento por outro que te faça sorrir e sentir bem. Aceitas?
Larga o chicote. Já não precisas dele para saberes quem és.
Então, de quem é afinal a culpa que carregas há tanto tempo?
Por Vera Xavier


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