Cientistas acreditam ter resolvido um mistério sísmico com cerca de 30 anos
O Japão e a Indonésia são os países que registam o maior número de sismos no mundo todos os anos. Não se trata de azar ou coincidência: a elevada sismicidade deve-se à sua localização dentro do Anel de Fogo do Pacífico, uma zona de intensa interacção entre placas tectónicas. Os especialistas afirmam que é a zona geológica mais ativa e perigosa do mundo, que contorna o oceano Pacífico, tem uma extensão de 40 mil quilómetros e a forma de uma ferradura, concentrando cerca de 80% dos grandes terramotos do mundo e 75 % dos vulcões ativos.
A placa do Pacífico e outras placas oceânicas menores, como as de Nazca, Cocos e Filipinas, deslizam sob as placas continentais num processo conhecido como subducção. O atrito constante acumula enormes quantidades de energia que, quando libertadas de forma súbita, originam fortes terramotos, tsunamis e erupções vulcânicas. Mais de 30 países situam-se ao longo desta faixa tectónica, incluindo os Estados Unidos da América.
Foi precisamente nesta região que cientistas norte-americanos identificaram agora “zonas de travagem” naturais capazes de impedir repetidamente a propagação das rupturas sísmicas, ajudando a esclarecer um mistério geológico com várias décadas relacionado com os terramotos submarinos no oceano Pacífico.
TERRAMOTOS DE MAGNITUDE 6 A CADA CINCO OU SEIS ANOS EM LOCAIS QUASE IDÊNTICOS
A descoberta centra-se na chamada Falha de Gofar, localizada a cerca de 1.600 quilómetros a oeste do Equador, na Dorsal do Pacífico Oriental. Há pelo menos 30 anos que esta falha produz terramotos de magnitude 6 a cada cinco ou seis anos, quase sempre nos mesmos locais – um padrão raro na sismologia, onde a maioria dos grandes sismos continua a ser imprevisível.
Os sismos de magnitude 6 são considerados fortes e podem provocar danos significativos em áreas povoadas, colocando vidas em risco.
Os investigadores descobriram agora que regiões estruturalmente complexas no interior da falha funcionam como barreiras naturais capazes de limitar a propagação das rupturas sísmicas. Estas “zonas de travagem” impedem repetidamente que os terramotos avancem além de determinados pontos durante cada ciclo sísmico.
“Sabemos há muito tempo que estas barreiras existem, mas a grande questão era perceber de que são feitas e porque conseguem travar os terramotos de forma tão consistente, ciclo após ciclo”, explicou a sismóloga Jianhua Gong, autora principal do estudo e professor assistente de Ciências da Terra e da Atmosfera na Universidade de Indiana Bloomington.
Para compreender o fenómeno, os cientistas analisaram dados recolhidos em duas campanhas de monitorização do fundo oceânico, realizadas em 2009 e entre 2019 e 2022. Durante essas missões, foram instalados sismómetros no fundo do mar ao longo de diferentes segmentos da falha de Gofar, permitindo registar dezenas de milhares de pequenos sismos antes e depois de dois eventos de magnitude 6.
A equipa verificou que, nos dias anteriores aos grandes terramotos, as zonas de barreira registavam breves episódios de actividade sísmica ligeira. Após a ruptura principal, essas mesmas regiões regressavam rapidamente a um estado de relativa calma.
Os investigadores concluíram que estas áreas possuem uma geometria altamente complexa e desempenham um papel activo na dinâmica da falha. Além disso, encontraram evidências de que a água do mar penetra profundamente nas zonas fracturadas, criando bolsas de fluidos sob pressão.
Segundo o estudo recém-publicado, quando uma grande ruptura sísmica atinge uma destas barreiras, o movimento rápido reduz subitamente a pressão dos fluidos na rocha saturada de água. Esse mecanismo, conhecido como “fortalecimento por dilatância”, aumenta temporariamente a resistência da falha e trava a propagação do sismo.
“Estas barreiras não são elementos passivos da paisagem geológica. São partes activas e dinâmicas do sistema de falhas, e compreender o seu funcionamento altera a nossa visão sobre os limites sísmicos nestas estruturas”, afirmou Gong.
Os cientistas acreditam que a descoberta poderá contribuir para melhorar os modelos de risco sísmico e a avaliação de ameaças em regiões costeiras e em sistemas de falhas submarinas em todo o mundo.


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